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Quatro semanas de greve geral na Bolívia: imperialismo americano e aliados regionais preparam esmagamento da insurreição

A Bolívia segue em ebulição sob um levante social de massas, quatro semanas após a decretação de greve geral por tempo indeterminado pela Central Obrera Boliviana (COB). Em 18 de maio, mineiros, professores, camponeses, operários e comunidades indígenas protagonizaram a maior manifestação do conflito até o momento, em La Paz. Ela foi recebida por 2.500 policiais e mil militares mobilizados em operações nas primeiras horas da manhã.

Passeata de mineiros em La Paz. [Photo: COB Central Obrera Boliviana]

Ao menos quatro manifestantes foram mortos e 127 detidos somente naquele dia, e mandados de prisão foram expedidos contra o secretário-executivo da COB, Mario Argollo, e outros 24 dirigentes sindicais, acusados de terrorismo. A repressão não quebrou o movimento. Em 21 de maio, a Administração Boliviana de Estradas registrou 46 bloqueios ativos, concentrados em pontos estratégicos de acesso a La Paz e El Alto.

Em 20 de maio, o presidente Rodrigo Paz apareceu diante da imprensa pela primeira vez em quase uma semana e descartou categoricamente sua renúncia: “Estarei aqui por cinco anos para reorganizar o país”. Ele anunciou uma reforma ministerial e um novo “Conselho Econômico Social” como suposta plataforma de diálogo. Em 22 de maio, nem a composição nem a data de instalação do Conselho haviam sido tornadas públicas, e a COB condicionou qualquer diálogo à prévia retirada de todos os mandados de prisão.

A Bolívia não enfrenta uma crise nacional isolada. O programa que se impõe à sua classe trabalhadora — eliminação de subsídios a combustíveis, privatização de recursos naturais, desregulamentação da terra agrícola, escalada da violência estatal — é o mesmo programa sendo implementado em toda a América Latina sob a direção do imperialismo americano e do capital financeiro internacional.

A insurreição dos trabalhadores e dos pobres bolivianos é a expressão mais aguda de uma resposta de massas que começa a tomar forma contra a ofensiva política liderada por Donald Trump e seus aliados fascistoides na região.

O governo Trump, que vê toda sua estratégia hemisférica em jogo diante da ameaça dos trabalhadores bolivianos de derrubar Paz e suas políticas de direita, reagiu com desespero e brutalidade.

Em 20 de maio de 2026, enquanto as forças estatais matavam manifestantes em La Paz e El Alto, o secretário de Estado americano Marco Rubio publicou no X: “Que não reste dúvida: os Estados Unidos apoiam irrestritamente o governo constitucional legítimo da Bolívia”. Acrescentou que Washington “não permitirá que criminosos e traficantes de drogas derrubem líderes democraticamente eleitos em nosso hemisfério”.

O terreno político para essa caracterização havia sido preparado um dia antes, em 19 de maio, na assembleia anual do Conselho das Américas em Washington, onde o subsecretário de Estado Christopher Landau declarou: “Trata-se de um golpe de Estado em andamento. Não nos enganemos; é um golpe financiado por essa aliança perversa entre a política e o crime organizado em toda a região”.

Landau afirmou ter ordenado diretamente “aos líderes do Brasil e da Colômbia que apoiem o presidente Rodrigo Paz”. “A grande divisão se estabelece entre os países que têm instituições capazes de enfrentar o crime organizado e os que são cúmplices dele”, declarou.

O cinismo de Rubio e Landau ao invocar a defesa da “democracia” e do “estado de direito” na América Latina é estarrecedor.

Essa proclamação vem da mesmo governo que invadiu a Venezuela e sequestrou seu presidente em exercício, que esfomeia deliberadamente os 11 milhões de cubanos com o objetivo de derrubar seu governo, que interferiu diretamente em eleições recentes na Argentina e em Honduras, e que buscou reverter a persecução penal de Jair Bolsonaro e dos líderes militares brasileiros pela tentativa de golpe fascista de 2022-23.

Não é a sobrevivência política de Paz, muito menos o regime “democrático”, que Washington defende ao apoiar seu governo contra os trabalhadores bolivianos.

O Decreto 5503 de Paz, que desencadeou o levante de massas, implementou condições ditadas pelo FMI e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, anunciando a ampliação em 20 vezes de sua carteira de investimentos no setor privado boliviano, deixando explícito quem são os beneficiários.

A base intelectual desse programa tem uma fonte precisa: o Harvard Growth Lab, parte da Harvard Kennedy School, que começou a desenvolver um “Roteiro Abrangente de Reforma Econômica para a Bolívia” em janeiro de 2025 — quando Paz ainda era candidato. Economistas bolivianos descreveram o relatório como fornecendo “a base técnica para o programa de estabilização do governo”.

Uma investigação de 13 de maio publicada pelo eju.tv descreveu o cenário regional em termos contundentes: “Bolívia, Argentina e Honduras compartilham a mesma consultoria e o mesmo programa econômico”.

O governo fascistoide de Javier Milei, que implementa esse programa na Argentina, não é apenas um modelo para Paz, mas um participante ativo na sua imposição sobre a Bolívia.

Em 15 de maio, Paz agradeceu publicamente Milei pelo envio de um cargueiro C-130 Hércules da Força Aérea Argentina carregando 12 toneladas de frango congelado para cidades bloqueadas, apresentado como “assistência humanitária”. O ex-embaixador argentino na Bolívia Ariel Basteiro, porém, alertou em entrevista radiofônica de 17 de maio que a Argentina estava enviando armamentos ao governo Paz. Paz nega, mas há precedente histórico para tais remessas.

Em julho de 2021, o promotor federal argentino Claudio Navas Rial denunciou formalmente o ex-presidente Mauricio Macri, a ex-ministra da Segurança Patricia Bullrich e o ex-ministro da Defesa Oscar Aguad por contrabando agravado de armas ao regime golpista de Jeanine Áñez na Bolívia, em novembro de 2019 — especificamente, 40.000 cartuchos e bombas de gás lacrimogêneo usados para reprimir os protestos contra o golpe. Um tribunal boliviano condenou posteriormente o chanceler de Áñez a três anos de prisão por facilitar sua entrada ilegal.

O recém-exposto escândalo “Hondurasgate” revelou o significado político da intervenção de Milei. Gravações vazadas expuseram uma conspiração transnacional apoiada pelos EUA — envolvendo o narcotraficante anistiado e ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, libertado por Trump depois de ter sido condenado a 45 anos de prisão por tráfico de cocaína — para construir “células de informação”, financiar desinformação e coordenar uma ofensiva regional para erradicar “o câncer da esquerda”.

As respostas regionais à crise boliviana expuseram não apenas a criminalidade absoluta do imperialismo americano e de seus representantes fascistoides, mas também a podridão e a cumplicidade dos regimes burgueses ditos “progressistas”.

Diante dessa ofensiva em bloco dirigida pelo imperialismo, o presidente colombiano Gustavo Petro ergueu-se como a única voz dissidente entre os chefes de Estado latino-americanos: “A Bolívia vive uma insurreição popular. É a resposta à soberba geopolítica”. Ele ofereceu a mediação de seu governo — “se convidado” — para buscar “soluções pacíficas para a crise política boliviana” e pediu “nenhum preso político em nenhuma parte das Américas”. O governo Paz rejeitou a oferta como “ingerência em assuntos internos” e, em 20 de maio, expulsou formalmente a embaixadora colombiana Elizabeth García Carrillo.

O silêncio do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva é de uma ordem distinta e de consequências muito mais graves.

O Brasil é o maior comprador de gás boliviano e o mais importante parceiro comercial do país. Essa relação foi reforçada em 16 de março de 2026, quando Paz realizou visita de Estado ao Palácio do Planalto e Lula declarou que “o Brasil tem interesse em aumentar a produção de gás na Bolívia e em ampliar o volume das importações”. Enquanto os trabalhadores bolivianos enfrentavam balas e acusações de terrorismo, Lula ficou em silêncio. Não condenou as mortes. Não denunciou os mandados de prisão contra 25 dirigentes sindicais. Não rejeitou as alegações de “golpe” de Landau, que o funcionário do Departamento de Estado dos EUA exigiu explicitamente que Lula endossasse.

Esse silêncio deve ser lido à luz dos acontecimentos das últimas semanas. Em 7 de maio, Lula viajou à Casa Branca para um encontro com Trump que o WSWS caracterizou como um acobertamento dos crimes imperialistas do governo americano: ele descartou a Venezuela, Cuba e a invasão do Irã como “não sendo assuntos brasileiros”, ofereceu-se para ajudar Washington a administrar Cuba e anunciou que as vastas reservas de terras raras do Brasil estariam abertas a qualquer comprador imperialista.

Dois episódios recentes revelaram concretamente o significado político dessa visita. Enquanto Lula era fotografado com Trump em Washington, o porta-aviões nuclear USS Nimitz entrava na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, liderando uma força-tarefa da Marinha dos EUA que realizou exercícios conjuntos com fragatas, corvetas e um submarino brasileiros — exercícios que o Brasil havia suspenso em 2025, no auge de suas tensões diplomáticas com o governo Trump. Como escreveu O Estado de São Paulo: “é inegável que a retomada dos exercícios conjuntos é um sinal claro do atual estado das relações entre os dois governos”.

Em seguida, em 18 de maio — o dia mais violento dos protestos em La Paz —, a CNN Brasil noticiou que o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, se preparava para viajar a Buenos Aires a fim de apresentar ao governo Milei o catálogo completo da Base Industrial de Defesa brasileira: mísseis, foguetes, bombas e, explicitamente, “armas menos letais” — precisamente a categoria sendo empregada contra os manifestantes bolivianos e precisamente a categoria que Basteiro alega que a Argentina vem fornecendo a Paz. O Ministério da Defesa de Lula descreveu o encontro como “uma visita de negócios com tom diplomático”. O governo “progressista” brasileiro oferece-se para armar, pela via comercial ordinária, o governo fascista que articula o esmagamento violento da classe trabalhadora não apenas na Argentina, mas em toda a América Latina em nome do imperialismo americano.

O que a resposta internacional à insurreição boliviana revela não é uma série de posições nacionais desconectadas, mas os componentes entrelaçados de um único aparato — intelectual, financeiro, político, e militar-diplomático — acionado assim que os trabalhadores de El Alto e La Paz ameaçaram derrubar o governo.

A resposta a uma ofensiva internacionalmente coordenada do capital só pode ser uma ofensiva internacionalmente coordenada da classe trabalhadora: nas minas, escolas e bairros da Bolívia, na Argentina, no Brasil e na Colômbia, e nos próprios Estados Unidos, onde a mesma oligarquia que impõe austeridade e repressão no exterior desmantela, domesticamente, cada conquista social e democrática arrancada pelos trabalhadores.

Essa luta unificada exige romper com todas as frações da burguesia — incluindo aquelas que oferecem mediação — e construir, sobre os alicerces do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) e da Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AIO-CB), a direção política independente que a classe trabalhadora necessita e que o atual momento crítico exige.

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